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É difícil trazer a inflação de 11% para 3%

“Vai ser difícil reduzir a inflação de 11% para 3%. Possivelmente, vai ser necessária uma queda forte do nível de atividade, para conseguir trazer a inflação para a meta, como aconteceu quando a inflação chegou a 10% em 2015. Foi preciso uma recessão, e mesmo assim foram dois anos para baixar”, disse o consultor legislativo do Senado Ailton Braga ao Estadão/broadcast.

“O que estamos vendo são surpresas positivas de atividade econômica e na taxa de desemprego. Os salários estão recompondo a inflação defasada. Nesse contexto, a inflação de serviços vai piorar. Mas o BC está subindo juros. Em algum momento, a economia vai desacelerar e os preços de serviços também, mas no ano que vem devem continuar altos”, diz o economista-chefe da Novus Capital, Tomás Goulart.

O economista projeta alta do IPCA de 8,4% este ano e de 4,2% em 2023, com 7,0% e 5,5% para serviços. Para ele, o BC tem que “rezar” por uma reversão da inflação global, especialmente dos preços de commodities, para conseguir alcançar um IPCA mais próximo da meta no ano que vem. “Muito dificilmente teremos desinflação maior que isso. Esse patamar de 4 pontos porcentuais já é uma baita desinflação.”

A Tendências Consultoria Integrada espera desaceleração ainda maior dos preços de serviços entre o fim de 2022 e 2023, de 7,0% para 3,7%, também observando um “esfriamento” do mercado de trabalho no segundo semestre deste ano. “Devemos ‘colher’ menos preços de serviços em 2023”, explica a economista e sócia Alessandra Ribeiros. •

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Crise chinesa atinge indústrias no Brasil e deve afetar inflação.

A desaceleração da economia chinesa, provocada em parte pela política de covid zero – com lockdowns extremamente rigorosos –, terá impacto também na economia brasileira. A dificuldade de importar produtos da China, principalmente insumos para a indústria, se reflete nos preços e deve contribuir para manter a inflação em alta.

Segundo o presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, já há reflexos nos custos dos produtos vindos de fora. Em abril, os preços das importações, em dólares, subiram 34,4%, com recuo de 6,9% nas quantidades. Em março, os preços já tinham aumentado 29,5%, diz Castro. “O impacto desse lockdown na China é muito mais inflacionário”, diz.

Para o economista Lívio Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), a combinação dos novos lockdowns na China com estragos provocados pela guerra entre Ucrânia e Rússia deve levar a um mundo com inflação mais elevada por mais tempo. “Se antes a gente tinha dúvidas de que o processo de reorganização das cadeias produtivas se completaria este ano, hoje parece muito improvável que isso ocorra”, diz.

ATRASOS. Em algumas empresas, o efeito do lockdown chinês já é sentido na pele. A Ecosan, fabricante de equipamentos para tratamento de efluentes domésticos e industriais, importa da China componentes como chapas de inox e produtos químicos para o tratamento de água e recuperação de efluentes. Normalmente, os bens levavam de 45 a 60 dias para chegar ao Brasil, prazo que passou a cem dias após a pandemia. Agora, com o novo lockdown, pode chegar a 120 dias.

“Com o recente lockdown, ficou ainda mais difícil manter as entregas para nossos clientes, além dos preços terem subido muito”, diz o presidente da empresa, André Ricardo Telles. Segundo ele, a Ecosan tem muitos itens à espera de embarque, o que tem levado a reprogramações constantes na linha de produção.

Já a indústria farmacêutica contabiliza um atraso de cerca de 20 dias na entrega de matérias-primas compradas da China, segundo Henrique Tada, presidente executivo da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos.

Nacionais (Alanac), que reúne mais de 50 empresas. “Neste momento, estamos com atraso na produção, mas ainda não há desabastecimento”, diz o executivo. A indústria farmacêutica nacional importa 90% das matérias-primas, e a China é hoje o principal fornecedor, seguido pela Índia.

VAREJO. Os problemas de fornecimento também são vistos no comércio. As lojas da Rua 25 de Março, centro de comércio popular de São Paulo, começam a sentir a falta de alguns campeões de venda, como os carrinhos Hot Wheels, segundo Marcelo Mouawad, porta-voz da União dos Lojistas da 25 de Março e Adjacências (Univinco).

O empresário conta que os lojistas da 25 de Março estão se desdobrando para garantir as mercadorias. Segundo ele, o problema só não é ainda tão preocupante porque, neste momento, a demanda não está tão aquecida. Em suas contas, a demanda nas lojas da região ainda está cerca de 25% abaixo do período de pré-pandemia.

João Carlos Brega, presidente da Whirlpool América Latina (dona das marcas Brastemp e Consul), vai na mesma linha. Para ele, o problema dos lockdowns na China só não é maior porque a economia brasileira está muito desaquecida. “Já tivemos no passado mais problemas por falta de componentes”, diz. “No momento, não estamos tendo mais, porque o volume (de vendas) caiu no Brasil. Mas existem outros setores que estão sofrendo muito, como a indústria automobilística.”

Para ele, por conta de tudo que vem acontecendo no mundo, haverá uma diminuição da concentração dos fornecedores de insumos num só local, no médio e longo prazos.

Autor/Veículo: O Estado de S.Paulo

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