• Valor Econômico

Demorou, mas etanol começou a cair na bomba

Os motoristas demoraram para perceber, nos postos, a queda dos preços do etanol hidratado que começou a ocorrer no início da entressafra de cana para as usinas, inclusive de forma atípica para a época do ano. Foi apenas na última semana que o biocombustível se tornou economicamente mais vantajoso do que a gasolina para motoristas dos maiores Estados consumidores. E os valores nas bombas ainda não refletem toda a desvalorização ocorrida aos produtores.

O “atraso” no repasse preocupava algumas usinas, que apostam na competitividade do etanol ante a gasolina para reanimar as vendas e, assim, desovar parte dos elevados níveis em que estão os estoques, ante um consumo ainda fraco.

Em 2021, o hidratado, que compete com a gasolina nas bombas, alcançou, para as usinas, o maior valor da história na primeira semana de novembro, acompanhando, então, a disparada da gasolina e também a baixa oferta do produto, já que as usinas priorizaram a produção de etanol anidro e açúcar na safra.

Desde o início de novembro, o valor recebido pelas usinas paulistas pelo produto começou a cair e, até a semana passada, recuou cerca de R$ 1 o litro, ou 27%, segundo o indicador Cepea/Esalq. Porém, nos postos, o biocombustível acumulou queda no período de R$ 0,8 o litro, ou 15%, com quedas mais acentuadas nas últimas duas semanas, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

“O giro de estoque foi muito prejudicado em janeiro por causa da ômicron, que levou a uma queda de demanda gigantesca e fez com que o canal como um todo, do produtor ao distribuidor - e ao ponto final - ficasse estocado”, afirmou uma fonte de uma grande distribuidora, que nega aumento das margens na distribuição no período. Procurado, o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), porta-voz das grandes distribuidoras, preferiu não comentar.

Paulo Soares, presidente da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), também nega alta de margem dos postos. “Meu preço está vinculado à distribuidora. É só uma questão de administrar o estoque. Espero vender o produto comprado mais caro, mas quando chega produto com preço menor, eu repasso”.

Estoques

Segundo ele, os postos costumam trabalhar com estoques para três a quatro dias de consumo, e normalmente a queda dos preços nos produtores leva de dez a 15 dias para chegar integralmente nas bombas. As distribuidoras veem um tempo de repasse maior, de 15 a 20 dias.

É fato que o tombo nas vendas de hidratado pelas usinas do Centro-Sul em janeiro pegou os agentes da cadeia de surpresa. Segundo a União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), o volume comercializado caiu abaixo dos 1 bilhão de litros, recuo de 45% na comparação anual - nos meses anteriores, os volumes estavam com quedas na casa dos 30%. “As vendas do ciclo Otto caíram como um todo”, diz Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da Unica.

Assim, o volume de hidratado nos estoques do Centro-Sul em 31 de janeiro era de 3,4 bilhões de litros, o que garantiria mais três meses de um consumo igual ao de janeiro.

Apesar da recente queda, Padua lembra que os valores recebidos pelas usinas seguem mais altos neste ciclo. Na última semana, os preços recebidos pelas unidades paulistas estavam 35% acima dos valores de um ano atrás, segundo o Cepea.

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