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Petrobras admite importar combustível para evitar falta de combustíveis

A possibilidade de importação foi informada pela estatal na noite dessa terça-feira (19). Com a disparada do dólar (fechou a R$ 5,59 nessa terça), a opção pode significar em mais reajustes para os motoristas.


“Atualmente, há dezenas de empresas cadastradas na ANP aptas para importação de combustíveis. Portanto, essa demanda adicional pode ser absorvida pelos demais agentes do mercado brasileiro”, informou a estatal em comunicado.


Em meio à ameaça de nova paralisação dos caminheiros, a Petrobras informou mais cedo que o Brasil pode sofrer escassez de diesel no mês de novembro. O alerta ocorre quatro após a estatal negar o risco de desabastecimento no Brasil.


O comunicado da Petrobras cita uma “demanda atípica” de pedidos de fornecimento de combustíveis para novembro que superam a capacidade de produção. Por isso, somente com muita antecedência teria condição de atender a demanda.


A estatal destaca ainda que opera seu parque de refino com fator de utilização de 90% no acumulado de outubro, contra 79% no primeiro semestre do ano.


“Na comparação com novembro de 2019, a demanda dos distribuidores por diesel aumentou 20% e a de gasolina 10%, representando mais de 100% do mercado brasileiro”, destaca comunicado da petroleira.


Apesar da demanda elevada, a Petrobras informa que continua atendendo os contratos com as distribuidoras, de acordo com os termos, prazos vigentes e sua capacidade. Além disso, está maximizando sua produção e entregas, operando com elevada utilização de suas refinarias, afirmou.


Conforme a estatal, o mercado brasileiro de diesel foi abastecido nos últimos anos tanto por sua produção, quanto por importações realizadas por distribuidoras, o que garantia o atendimento da demanda.


A Associação das Distribuidoras de Combustíveis Brasilcom – representante de mais de 40 distribuidoras regionais de combustíveis – afirmou, na última sexta-feira (15), que tinha ocorrido “uma série de cortes unilaterais nos pedidos feitos para fornecimento de gasolina e óleo diesel”.


A situação foi comunicada à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).


‘Estado de greve’


O risco de desabastecimento ocorre em meio à ameaça de paralisação de caminhoneiros. A categoria se diz em “estado de greve” desde o último sábado (16) e, durante o fim de semana, líderes de entidades do setor fizeram críticas ao presidente Jair Bolsonaro. Nessa segunda-feira (18), as associações prometem entregar uma lista de reivindicações para o governo. Segundo as entidades, sinalizações positivas são necessárias para evitar paralisação nacional a partir de 1º de novembro. O governo, porém, minimiza a mobilização.


Na pauta dos caminhoneiros, estão itens como o cumprimento do valor mínimo do frete rodoviário, a aposentadoria especial para a categoria (aos 25 anos de trabalho) e a mudança na política de preços da Petrobras para combustíveis para reduzir a flutuação do diesel.


Segundo a reportagem apurou, porém, o governo federal vê a mobilização como ameaças feitas antes – e que mais uma vez não devem ser cumpridas. De acordo com uma fonte, desde 2018 já foram 16 tentativas de paralisação malsucedidas, sendo quatro delas neste ano. A reportagem apurou ainda que a mudança do preço dos combustíveis, a partir de uma “canetada”, também não é uma possibilidade. Oficialmente, porém, o governo não comentou o assunto.


A estratégia dos líderes da categoria tem sido subir o tom. “Serei o primeiro (a parar em 1º de novembro)”, disse o presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, conhecido como Chorão, um dos organizadores do movimento.


O documento com reivindicações a ser entregue ao governo será assinado pela Abrava, pelo Conselho Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas (CNTRC) e pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL). Conforme as entidades, é a primeira vez desde 2018 que as três associações atuam juntas em um mesmo movimento.


“A nossa pauta é a mesma desde os atos de 1º de fevereiro. Não é um assunto novo para o governo nem para o STF ou para o Legislativo, que conhecem nossas demandas”, afirmou o diretor da CNTTL, Carlos Alberto Litti Dahmer. “Agora, ou o governo senta com a categoria para fazer um trabalho, chama as partes envolvidas – Petrobras, STF, Congresso – ou paramos o país”, completou o presidente do CNTRC, Plínio Dias, em referência ao movimento ocorrido em 2018, ainda durante o governo Michel Temer.


Não é descartada por parte dos líderes dos caminhoneiros uma flexibilidade no cumprimento de todas as demandas feitas ao governo. Contudo, as lideranças dizem querer ver direcionamento em torno de medidas concretas. “Estamos cansados de reuniões. Tentamos fazer articulação, mas a própria categoria não aguenta mais”, afirmou Chorão.


Rompimento?


Questionados pela reportagem sobre um rompimento com o governo do presidente Jair Bolsonaro, os representantes descartam uma ruptura formal e dizem que o movimento é apartidário, apesar da forte presença da categoria na mobilização convocada no dia 7 de setembro pelo presidente. “O movimento não é contra ou a favor desta gestão. Há muitos caminhoneiros que acreditam no governo Bolsonaro. Outros não concordam com a gestão”, afirmou Chorão.


“Não estamos levantando pauta partidária. A pauta é a sobrevivência da categoria. Se o governo realmente quiser ajudar os caminhoneiros do Brasil, iremos apoiar as medidas”, respondeu Dias, do CNTRC. Ontem, contudo, Litti, da CNTTL, falou em “desgoverno Bolsonaro” em pronunciamento.


Considerados base eleitoral de Bolsonaro, os caminhoneiros expressam insatisfação com o acúmulo de medidas anunciadas e não cumpridas. “São três anos de governo e não foi feito nada para a categoria, apenas falácias e promessas”, disse Dias.

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